Quando eu era uma adolescente, lésbica e ainda não assumida,
reprimida pelos padrões tidos como normais na sociedade da época,
me recordo de comentários de estudantes, as meninas, algumas até
minhas amigas, falando a respeito de uma menina com fama de “sapatão”.
O nome dela era Vanessa.
Ela era uma loira, alta, e não tinha nenhum estereótipo masculino que lhe direcionasse essa fama. Alguém liberou o boato, e este se difundiu entre os corredores largos e frios daquela moradia da educação católica.
Elas falavam e riam, se indignavam em comentários dos quais ate a mais feinha e simplória delas como a Catita dizia: “Ui, que medo, se aquela lésbica me cantar eu grito!” Aí pensava eu: que idéia era essa? Que idéia diminuta, imbecil é essa? Será que a “fulana” por ser homossexual não tinha direito a “gosto”, a interesse por determinado perfil?
E se tivesse, se gostasse da bonitona da Geórgia M. que era o filé da época de colégio, isso queria dizer que ela ia “agarrar” a menina só por ser esta a sua preferência sexual? Por acaso todos os homens heterossexuais saem por aí em peso agarrando as mulheres das quais se sentem interessados? Quer saber, eu já me sabendo “homo-intro” naqueles dias de aula, pensava que eu com aquela menina que teceu o comentário não ficaria nem por reza forte!
Então, o conceito daqueles dias era que se alguma menina era lésbica ia dar em cima de qualquer fêmea que fizesse parte do planeta. As coisas hoje estão mais corretas, digo isso porque a liberdade de parecer existe, e é respeitada por um grande número de indivíduos, acredito até que pela maioria. Hoje temos livros, revistas, artistas, ativistas, todos num universo amplo de iguais, e isso com certeza isso tudo abriu a porta da frente.
Ainda assim, como defensora do amor entre iguais, quero citar aqui um fato
retrogrado para nosso tempo. Numa festa recente, em que a maior parte das
pessoas era público mix, ou seja, gays, lésbicas e simpatizantes,
uma “tal” moça DJ fez o infeliz comentário: “Eu
estou aqui, mas se alguma delas me agarrar eu grito!” Reprise? Ahhh!
Então, anos depois eu ainda fico sabendo desse tipo de pensamento, não é porque alguém é homossexual que vai querer te agarrar menina! Existe algo chamado “gosto” e outra coisa chamada “atitude”, uma pessoa normal com um pingo de senso não sai por aí agarrando ninguém, com certeza esse tipo de acontecimento se dá muito mais no meio hetero do que entre os gays.
A falta de discernimento de quem acha que porque alguém é gay vai assediar qualquer ser do mesmo sexo é totalmente discrepante com a cultura e o acesso as circunstancias da nossa vida atual. Considero pessoas assim retrogradas, hostis e ignorantes, as quais me favorecem com a ausência.
Divido meus dias entre pessoas maravilhosas, de todas as classes, culturas e padrões sociais, agradeço ao cara la de cima por mais este privilégio, de ter essas pessoas maravilhosas em minha vida. Apenas completo dizendo que nessa noite a pessoa da crítica maliciosa teve uma sorte enorme, ue foi a de eu só saber desse comentário no dia seguinte!
E num quase plágio daquela apresentadora, posso dizer: Mexeu com um dos meus, mexeu comigo! . by ...BELLE ROVEDA
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