Encontro às Escuras ......by Dykerama
Chegando ao hotel subimos até nosso apartamento, descarregamos nossas malas e nos sentamos na cama de casal. Nos olhamos com sorrisos nos olhos e no rosto.Sorrisos felizes e envergonhados, tímidos. Me deitei devagar na cama, como se a tivesse convidando para se dividir comigo.
Na Barca do São
Francisco .......................by Bertha Solares
Capitulo 1
Janeiro de 1979, eram sete horas da noite quando o ônibus
finalmente chegou a Pirapora, era tão claro que parecia dia.
Diversos jovens começaram a desembarcar e uma fila se formou do
lado de fora para esperar as bagagens. Entre eles estava Bia, uma
garota de 22 anos, vestia-se como todos os outros: camiseta
tingida de verde cheia de desenhos feitos de nós, calça jeans
e
sandália, tinha cabelos compridos e prendia a franja com um
grampo, não se diferenciava em nada das outras moças que desceram
do ônibus, a não ser pelo fato de estar sozinha, enquanto os
outros jovens faziam parte de um mesmo grupo.
Depois de esperar bastante, conseguiu pegar suas coisas que
estavam lá no fundo do bagageiro: uma mochila novinha e uma bolsa
de náilon dessas de carregar a tiracolo; suspirou profundamente e
olhou em volta, precisava se informar ¿ como conseguir um hotel
barato, não podia desperdiçar dinheiro. Tinha planejado fazer
essa
viagem desde o ano passado, mas estava nervosa, não que fosse
novata em aventuras, tinha rodado o Nordeste de carona no ano
anterior com um grupo de amigos, mas desta vez estava viajando
sozinha, seus amigos de aventura deviam estar no trem que os
levaria a Cochabamba e de lá a Machu Picchu, tinham insistido para
que ela fosse com eles, mas ela não quis, precisava ficar sozinha
e colocar alguns sentimentos em ordem e decidir algumas coisas
sobre sua vida.
Esse ano que começava seria decisivo para ela, era seu último
ano
de faculdade e precisava pensar a respeito de seu futuro, não
queria ficar a vida toda trabalhando em banco e tinha que decidir
também o que faria de sua vida amorosa; havia largado seu namorado
no meio do ano e não queria mais saber de ninguém, essa
experiência tinha sido o divisor de águas. Tinha transado com
ele
só para se afirmar perante suas amigas, era a única virgem da
turma, só que não tinha gostado da experiência, aliás,
parece que
tudo tinha ficado pior, porque agora tinha certeza de não queria
saber de homens. Há muito tempo sentia ¿ se diferente das outras
garotas, não sabia o que fazer, nem o que pensar acerca dos sonhos
que há muito tempo insistiam em lhe confirmar que queria mesmo era
estar com mulheres, para falar a verdade não tinha viajado com sua
turma para Machu Picchu porque sua melhor amiga estava namorando e
ela estava morrendo de ciúme do namorado dela.
Informaram na estação que havia uma pensão baratinha
na rua de
baixo e lá foi ela, mochila nas costas, procurar um lugar para
descansar depois dessa viagem cansativa. Só pensava em tomar um
banho, jantar e dormir, estava viajando há mais de vinte horas,
tinha saído de São Paulo, parado em Belo Horizonte e agora
finalmente chegara a primeira etapa de seu destino, que era
Recife, em Pernambuco. Tinha vindo até Pirapora para pegar a barca
e navegar pelo Rio São Francisco até Juazeiro, na Bahia, de
lá
iria para Petrolina e depois para Recife, tudo tinha sido
previamente estudado por ela, não fosse uma futura geógrafa,
daria
uma boa agente de turismo. Tinha providenciado tudo de São Paulo,
conseguiu que um colega de banco da agência de Pirapora comprasse
sua passagem para a barca, tinha todo o roteiro estudado na
cabeça, achava que nada ia dar errado, a única coisa que a deixava
preocupada era a solidão enorme que sentia desde que entrou no
ônibus lá em São Paulo.
A pensão que achou era bem simples, tinha poucos quartos e o
banheiro era um só no fim do corredor, mas era agradável.
Instalou-se, tomou banho e saiu para procurar um lugar onde
jantar, achou um boteco que servia prato feito e resolveu entrar,
sentou numa mesa no fundo. Enquanto aguardava seu pedido, começou
a olhar para as pessoas das outras mesas, a maioria não parecia
ser gente da região, reconheceu até o grupo que chegou no mesmo
ônibus que ela; a mesa que mais chamou sua atenção foi
uma lá da
frente, estavam sentados nela dois rapazes e uma moça, que ela não
podia ver direito porque estava sentada meio de lado, reparou que
um dos rapazes da mesa olhou para ela e deu um largo sorriso,
ficou sem graça e disfarçou tentando prestar atenção
na comida e
na música que tocava, era o Roberto Carlos cantando ?Além do
Horizonte?, nunca tinha reparado na letra, não era fã dele,
só
ouvia Chico, Gil, Caetano, Gal, Bethânia, naqueles dias se
deliciava ouvindo o disco do Sá & Guarabira, ?Pirão de Peixe
com
Pimenta?, que tinha adotado como trilha sonora de sua aventura.
Ficou triste com a música, porque ele cantava ?de que vale o
paraíso sem amor? e ela tinha que concordar, também estava em
busca de um amor; riu depois, ao pensar no que seus amigos de
faculdade diriam se a vissem se emocionar com o Roberto, cantor
não muito aceito nos círculos universitários. Terminou
de comer,
pediu um café, que mais parecia um chafé, acendeu um cigarro,
pagou a conta e saiu.
Na volta para a pensão encontrou aquele trio do bar, o rapaz
novamente sorriu para ela, mas o que chamou a atenção de Bia
foi a
moça que estava com eles devia ter a sua idade, era alta, bonita e
tinha um jeito decidido de quem sabia o que quer, ela também
vestia calça jeans desbotada e estava com uma camiseta vermelha
que tinha espelhinhos bordados. Quando se cruzaram, Bia teve a
impressão que o rapaz falou qualquer coisa para a moça, porque
ela
olhou para trás e flagrou Bia ainda olhando para ela, já era
escuro, senão a garota teria visto o rosto vermelho de vergonha de
Bia.
Acordou cedo no dia seguinte, precisava tomar café e procurar o
endereço de seu colega para pegar a passagem, informaram na pensão
que ela deveria tomar um táxi porque aquela rua era na parte alta
da cidade, não dava para ir a pé. Era sábado e quando
chegou à
casa de Sávio e tocou a campainha, um bando de gente saiu de lá,
toda a família estava esperando por ela, gente tão simpática
e
hospitaleira, que Bia se viu na obrigação de aceitar o convite
para almoçar com eles. Durante o almoço ficou sabendo toda a
história da região, contaram para ela que as barcas que navegavam
pelo São Francisco, o Velho Chico, foram compradas do governo
americano, eram aquelas mesmas que já tinham navegado lá no
Rio
Mississippi, aquelas que a gente vê nos filmes. Para os
americanos, elas não serviam mais, porque eram lentas, movidas a
vapor, mas, para a região do São Francisco, eram o único
meio de
transporte da população barranqueira há mais de trinta
anos.
O pai de Sávio contou também que ele achava que logo, que
a
Barragem de Sobradinho ficasse pronta, as barcas seriam
aposentadas; tinha pena do pessoal pobre da região, muitas cidades
da Bahia já tinham desaparecido inundadas pelas águas da barragem,
e muitas aguardavam sua hora, o progresso vinha para acabar com
histórias de séculos, famílias perdiam suas raízes
e eram
obrigadas a emigrar; contou que Pirapora já estava lotada de gente
que vinha tentar a sorte em Minas, que isso não era certo, mas o
que esperar de um governo que só cuidava dos ricos.
Eles fizeram questão de mostrar a cidade; Bia pôde conhecer
onde
se faziam as famosas carrancas, aquelas figuras feias que
enfeitavam a proa das embarcações para espantar maus espíritos,
ela até pensou em comprar uma e levar para São Paulo, mas eram
muito grandes e pesadas. Foram depois até o porto, para que ela
conhecesse a barca onde iria estar no dia seguinte. Quando
chegaram ao cais já era fim de tarde, o sol estava indo embora, já
começara a se esconder lá no fim do rio; lá embaixo,
perto das
barcas, uma confusão de marinheiros subia e descia carregando
caixas, meninos pulavam na água brincando de mergulhar, uma cena
tão bonita, que Bia juntou todo mundo e registrou, com sua máquina
fotográfica, aquela família tão simpática e aquele
dia tão
agradável. No caminho para pegar o carro, Bia reparou que aqueles
três do boteco estavam sentados no porto apreciando o movimento,
olhou para eles de longe e, sem saber por que, sentiu vontade de
ficar com eles, apreciando o pôr-do-sol.
Ela se despediu de todos, voltou para a pensão e decidiu que os
planos agora eram: tomar banho, comer um lanche e dormir.
Sentia-se cansada, achava que era por causa do calor que fazia,
devia estar uns 35 graus e já anoitecera. Precisava acostumar-se
com o calor, porque isso não ia faltar na viagem.
Manhã de domingo, era muito cedo, Bia e uma multidão de pessoas
já
estavam no porto esperando a ordem de embarcar. Era muita gente e
ela não sabia o que fazer, de repente um tumulto se instalou,
todos queriam entrar na barca ao mesmo tempo depois de ouvirem
soar o apito, que parecia dizer: todos a bordo. Ela quase foi
atropelada, todos corriam para achar um lugar onde pendurar suas
redes e ajeitar suas coisas e Bia ali parada dentro da barca sem
saber o que fazer.
Acalmou-se e procurou um lugar para sentar. Olhou, olhou e
percebeu que não existiam bancos na barca, teria mesmo era que
procurar um pedaço de chão sem ninguém e sentar, acabou
achando um
lugar perto de uma escada, onde deu para ajeitar suas coisas.
Sentiu um medo enorme e pensou que já era muito tarde para voltar
atrás, mesmo porque a barca já começava a partir, agora
era
esperar que tudo desse certo.
Aos poucos as pessoas começaram a conversar, e ela ficou sabendo
que a barca tinha dois andares mais um terraço na parte de cima
onde podiam tomar sol, mas que as pessoas que estavam viajando na
parte de baixo eram proibidas de subir. Existiam duas classes na
barca, a última onde ela estava e a primeira, que era proibida.
Ficou sabendo também que a comida não era das melhores e que
com
certeza ia chegar uma hora em que ela iria preferir ficar com fome
do que comer. Quem contava tudo isso era um rapaz gaúcho que
estava fazendo a viagem pela segunda vez, ele estava junto com um
grupo de rapazes e moças que estava vindo do Rio Grande do Sul e
pretendia ir até o Ceará. Ele contava que na parte de baixo
também
tinha divisão social, os marinheiros dividiam os passageiros entre
?estudantes branquelos do Sul? e povo da região. Quem fazia parte
do primeiro grupo era bem tratado, enquanto o povo da região tinha
de se virar sozinho porque eles não davam a mínima atenção.
Bia
pensou que a barca apenas refletia a sociedade, pobres de um lado
e ricos de outro, apesar desses ricos serem apenas um bando de
estudantes aventureiros, quase sempre viajando sem dinheiro.
Bia conversou com esse pessoal a manhã inteira, trocaram idéias,
contaram experiências, até que chegou a hora do almoço,
que não a
pegou de surpresa, porque seu amigo Sávio a havia prevenido para
levar prato e talher porque eles não forneciam. A comida não
era
tão ruim: arroz, feijão, macarrão, tomate e um pedaço
de peixe;
comeu e lavou o seu prato como viu todo mundo fazendo, mergulhando
na água do rio e deixando a correnteza lavar.
Bia voltou para seu pedaço de chão onde tinha ajeitado suas
coisas, sentou, acendeu um cigarro e ficou ouvindo o barulho das
pás da roda girando na água do rio, a barca ia de mansinho rio
abaixo; aquele barulho fez com que cochilasse encostada na sua
mochila. Quando acordou, sentiu vontade de ir ao banheiro, o
marinheiro apontou uma portinha do lado esquerdo, quase no fim da
barca, quando entrou uma nova surpresa: o banheiro era um cubículo
com um buraco no chão que servia de privada e o chuveiro era bem
em cima dele. Pensou bem e resolveu que o melhor que tinha a fazer
diante das circunstâncias era pegar uma roupa velha, umas
sandálias havaianas, porque na barca não seria possível
andar de
roupa boa.
Foi o que fez, voltou ao seu lugar, pegou uma calça jeans bem
surrada, uma camiseta bem velhinha e sem manga, porque o calor era
absurdo, as sandálias e foi viver a aventura de trocar de roupa
num cubículo fazendo malabarismos. Vencida essa etapa, arregaçou
a
barra da calça até o joelho, prendeu o cabelo e pensou que não
tinha ficado lá muito atraente, mas também para quem iria ficar
atraente, não estava mesmo a fim de conquistar ninguém.
Quando voltou para seu canto, o grupo de gaúchos já estava
de papo
com outra equipe, eles eram do interior de São Paulo, da região
de
Sorocaba, junto com eles tinha também duas meninas de Holambra,
região de Campinas, onde se cultiva a maioria das flores vendidas
no Brasil, elas estavam viajando com um primo holandês que queria
conhecer o Brasil, aos poucos eles se juntaram e com Bia formaram
um grande grupo alegre e animado.
Trocaram experiências, inclusive ficou sabendo algumas coisas
sobre o banheiro, as meninas diziam que era extremamente
complicado tomar banho lá, não tinha onde pendurar a roupa,
o
jeito era ir tomar banho acompanhada, para que alguém ficasse do
lado de fora segurando as coisas, a única vantagem que elas
conseguiam ver é que o banho era quente, porque a água que servia
o chuveiro passava por cima da caldeira, coisa que os passageiros
da primeira não tinham, a água para eles chegava bem morna,
quase
fria.
Outra recomendação que lhe deram era para comprar umas bolachas
na
primeira parada, porque dentro de alguns dias não iria querer mais
comer a comida da barca, era melhor se prevenir, ela decidiu
seguir os conselhos e, assim que pararam em Januária, comprou
algumas bolachas, apesar de não ser muito chegada a biscoitos.
Contaram também que podia tomar sol e ficar à vontade na varanda
lá de cima, mas, como era exclusivo da primeira classe precisava
conhecer alguém de lá que a convidasse para subir, senão
teria que
amargar o calor e não poderia aproveitar aquele sol maravilhoso
que fazia.
Aos poucos, os passageiros de baixo foram se conhecendo. Havia
jovens de todos os lugares do país, um grupo do Rio de Janeiro,
outro do Mato Grosso, umas garotas de Santa Catarina, a maioria
era do Sul; viajavam também estrangeiros: dois americanos, que
traziam em sua bagagem sopa em lata e saco de dormir; um suíço,
duas alemãs, um casal de franceses, além de duas inglesas; era
uma
barca multicultural, o que eles tinham em comum era o amor pela
aventura e a vontade de explorar o país. Além deles havia bastante
gente da região, que se servia da barca como transporte de uma
cidade para outra, era a população barranqueira, que vivia às
margens do São Francisco, na maioria composta por lavradores muito
pobres que viajavam com a família toda, crianças, velhos, gente
simples castigada pelo tempo e pela pobreza, eram os mais quietos
da barca, pareciam estar um pouco assustados com aquele bando de
gente vinda de outros lugares e falando, alguns deles, línguas que
eles não conheciam.
Munida de todas as informações possíveis, ela resolveu
sentar um
pouco no seu canto e ler um livro para passar o tempo, que ia na
velocidade da barca, não mais de 20 quilômetros por hora; aquele
medo que sentiu logo que tinha chegado já tinha ido embora, tinha
feito amizades e acreditava que a viagem iria ser especial. Pensou
naqueles três que havia visto lá em Pirapora, ela acreditava
que
eles também estariam na barca, mas eles não estavam, já
conhecia
todos os seus companheiros, pensou na garota de camiseta vermelha,
que achara muito interessante, pena que não estava lá.
A noite chegou depois de um pôr-do-sol deslumbrante, o primeiro
dos muitos que ela veria; os passageiros jantaram a mesma comida
do almoço e aos poucos um grupo foi se juntando na parte da frente
da barca, surgiu um violão e começou uma cantoria regada a
branquinha da região, a famosa pinga de Januária, que passava
de
mão em mão, beberam também rum e jurubeba, a noite foi
passando
devagar, até todos estarem com sono.
Onde dormir? Esse era o grande problema que Bia tinha de resolver,
muitos tinham rede, outros saco de dormir, mas ela não tinha
levado nada, foi salva pelo rapaz gaúcho que ofereceu a sua rede,
ele iria dormir na rede de uma das alemãs. Agradeceu a gentileza e
pela primeira vez na vida viveu a experiência de dormir em rede, o
que foi um pouco complicado até lhe ensinarem que devia dormir no
sentido inverso; depois de encontrar o jeito certo, caiu num sono
profundo, o dia tinha sido longo e de muitas novidades.
Capitulo 2
O dia seguinte amanheceu quente, o café da manhã consistia num
copo de café preto bem fraquinho e um pão com margarina. Logo
depois, o marinheiro avisou que fariam uma parada para descarregar
mercadoria, pegar encomendas, desembarcar e embarcar pessoas,
avisou também que ficariam bastante tempo, muito mais do que
ficaram em Januária, já tinham passado por São Romão
e Carinhanha,
mas não tinham podido descer, agora seria diferente, estavam
chegando a uma cidade maior, que era Bom Jesus da Lapa, cidade
importante do interior da Bahia. Bia e seus amigos ficaram
excitados com a possibilidade de conhecerem a famosa Gruta do Bom
Jesus. Conforme a barca ia se aproximando, dava para ver o mar de
pessoas que estava esperando no porto, era uma verdadeira
multidão, que fazia uma festa à medida que a barca se aproximava,
e respondia a essas pessoas apitando, o comandante parecia feliz
também com a parada. Existia uma rampa que ligava a parte de baixo
do porto à cidade lá em cima e uma centena de pessoas estava
esperando a barca atracar para entrar, Bia não entendia bem o que
acontecia e pensava, como poderiam sair com tanta gente querendo
entrar? O caos estava formado, o que ela pensou que iria
acontecer, aconteceu; assim que a barca parou e os marinheiros
prenderam as cordas, uma multidão começou a entrar, enquanto
outra
multidão, com ela no meio, tentava descer.
A situação era perigosa, porque qualquer pé em falso
podia-se cair
no rio e ficar preso debaixo da barca, de repente Bia viu um rapaz
escorregar, foi rápida o suficiente e o puxou pela camisa, quase
que caem os dois, mas conseguiram se equilibrar e pular para terra
firme. Logo que se refez do susto, o rapaz, rindo muito e fazendo
mesuras como num filme antigo, se curvou, beijou sua mão
solenemente e disse num jeito pomposo e falastrão:
¿ Tu salvaste a minha vida,
bela senhora! Serás sempre minha
heroína salvadora, minha vida está agora em tuas mãos,
és
responsável por quem cativas e por quem salvas!
Bia ria muito se divertindo com
a cena, que assustava as pessoas
que estavam do lado e não entendiam nada. O rapaz falou então
que
era melhor eles subirem porque senão seriam arrastados novamente.
Lá em cima eles se apresentaram, o rapaz disse que se chamava
Marcos, que estava viajando junto com seu namorado e uma amiga e
achava que já a conhecia, não sabia de onde. Ela disse que se
chamava Maria Beatriz, mas todos a conheciam por Bia, e que ela
achava que também já o tinha visto.
Em poucos minutos Marcos lembrou:
¿ Você não
é aquela garota que estava jantando sozinha naquele
boteco fuleiro lá em Pirapora?
Bia respondeu que sim, e lembrou que ele era o rapaz que lhe havia
sorrido no bar, era aquele que estava acompanhado da garota da
camiseta vermelha, ficou surpresa e encantada com a possibilidade
de revê-la, mas não deixou transparecer nada.
Marcos era muito falador e, em
pouco tempo ela já sabia quase tudo
sobre ele e seus amigos. Ele estudava teatro na EAD. da ECA/USP,
trabalhava num banco, seu namorado chamava-se Alex, estudava
publicidade e sua amiga chamava-se Marília e estudava jornalismo;
eram amigos de infância e ela estava fazendo essa viagem para
escrever um artigo de turismo, ela trabalhava como freelancer num
grande jornal de São Paulo.
Enquanto Marcos falava e falava,
Bia pensava que havia gostado
muito dele, principalmente de sua franqueza, da falta de pudor em
se revelar como homossexual. Ela tinha um grande amigo na
faculdade que também era gay, já tinha inclusive ido a alguns
barzinhos entendidos com ele, mas Marcos era tão franco que ela se
espantou. Seu amigo Tadeu dizia que ela podia não ser entendida,
mas que entendia; ela é que não entendia o que ele queria dizer
com isso, ele também não explicava, o certo é que nos
últimos
tempos os únicos homens com quem convivia eram os amigos dele,
todos gays, adorava sair com eles, mas nunca tinha conhecido
nenhuma garota entendida. Será que Marília era entendida?
Enquanto aguardavam Alex e Marília
descerem da barca, deu tempo
também para trocarem impressões sobre a viagem. Marcos contou
que
estava na primeira classe, que de primeira tinha muito pouco, as
cabinas eram apertadas, a comida era horrorosa, a única coisa boa
era a varanda lá em cima onde eles passavam o tempo todo tomando
sol e jogando conversa fora.
Bia contou sobre como era viajar
lá em baixo, na última classe, o
que mais o impressionou foi saber como era o banheiro, ficou tão
espantado que disse a Bia para usar o banheiro lá de cima, que ele
não era muito bom, mas parecia mil vezes melhor que o dela. Ela
falou que haviam informado que os passageiros lá de baixo não
podiam subir, ele disse que era bobagem, que tinha um monte de
gente lá de baixo que tomava sol lá em cima, era tudo uma questão
de pedir para o comandante que ele deixava.
Foi então que Marcos avistou
seu pessoal, acenou pedindo para eles
subirem. Enquanto eles se aproximavam, ela pôde reparar melhor em
Marília, achou-a muito mais bonita do que se lembrava, tinha o
andar decidido, quase altivo, mas o que a deixou mais encantada
foi o sorriso maravilhoso que ela lhe deu quando foram
apresentadas, Bia sentiu algo estranho, mas resolveu não pensar
nisso.
Enquanto andavam em direção
ao centro da cidade, Marcos ia
contando para eles o que acontecera e como Bia se transformara em
sua heroína salvadora. Durante a conversa foi a vez de Marília
reparar em Bia, já a havia reconhecido, também tinha reparado
nela
lá em Pirapora, e sabia que estava na barca, pois já a tinha
visto
à noite, quando apreciava a cantoria lá em baixo, ficou contente
em saber que viajava sozinha, havia pensado que ela estava com um
dos rapazes que estavam sentados a seu lado. Sentira-se atraída
por Bia, mas também não queria pensar coisas, sua última
aventura
amorosa havia sido com uma garota que era hetero e ainda estava
curtindo uma grande desilusão.
Marcos foi quem decidiu como gastariam
o dia em terra, primeiro
iriam até à gruta, depois andariam para conhecer a cidade e
almoçariam. Todos concordaram com o roteiro e, sem que Bia desse
conta, já havia sido integrada a esse grupo, quem os visse acharia
que se conheciam há muito tempo, tal a empatia que havia surgido
entre os quatro.
A Gruta de Bom Jesus da Lapa tem
uma igreja que foi escavada na
rocha, era para lá que se dirigiam romeiros de todos os cantos do
país que vinham fazer pedidos ou pagar promessas. Existe também
uma sala de ex-votos, figuras feitas de cera ou madeira que os
romeiros deixavam em agradecimento pela graça recebida, eram mãos,
pés, cabeças, pernas, braços, tudo para mostrar o que
o Bom Jesus
havia curado.
Ficaram sabendo que podiam subir
até o alto da rocha e que de lá
poderiam ver toda a região, foi o que fizeram e lá em cima
contaram para o Marcos que havia uma pedra encantada mais abaixo,
ela tinha uma fenda e o casal que passasse junto de mãos dadas
pela fenda nunca mais deixaria de se amar. Marcos insistiu para
que fossem até lá, e foi o que fizeram depois de pedir informação
pelo caminho. Quando chegaram, viram que a fenda era muito
estreita, difícil de passar, mas Marcos insistiu com Alex que eles
deveriam tentar. As pessoas que estavam no local não entenderam
nada quando viram dois homens de mãos dadas se espremerem para
passar pela fenda. Conseguiram passar; Marcos estava exultante e
insistiu para que elas tentassem também, não adiantava elas
argumentarem que era bobagem, ele fazia chantagem, dizendo que se
elas não passassem o Bom Jesus iria estragar a viagem; acabaram
cedendo aos apelos e decidiram passar uma de cada vez.
Marília foi na frente seguida
de Bia e, quando já estavam quase
conseguindo sair, Bia prendeu o pé numa falha e Marília teve
que
ajudá-la dando sua mão e puxando-a para fora. Parece que o Bom
Jesus tinha planos para elas. Marcos não perdeu a oportunidade de
dizer que agora o destino delas estava selado, o que fez com que
Bia ficasse morta de vergonha e Marília sem graça.
Desceram rumo à cidade
para procurar um restaurante onde almoçar.
A cidade era pobre, mas alegre, com suas casas pintadas de cores
fortes que brilhavam mais ainda sob um sol desértico; as ruas eram
largas, cheias de árvores frondosas, flamboyant com flores
vermelhas, cinamomos e muitas outras, carregadas de flores que
coloriam ainda mais a cidade. Eles se divertiam com tudo o que
viam, conversavam com as pessoas, tiravam fotos fazendo poses,
estavam felizes, ninguém diria que Bia só se integrara a esse
grupo algumas horas atrás.
Acabaram parando para beber cerveja
num barzinho com mesas na
calçada, onde já estavam alguns grupos da barca. Marília
sentou
bem na frente de Bia, era impossível as duas não se olharem;
à
medida que bebia, Bia ia ficando mais falante, contava para eles o
que estudava, o que pretendia fazer depois de formada, falava
sobre suas outras viagens, e Marília acompanhava tudo interessada.
Bia percebia que Marília não parava de olhar para ela e estava
gostando disso, achava que, ou era efeito da bebida, ou as duas
estavam se paquerando, nunca nenhuma mulher tinha olhado para ela
daquela forma e nem ela tinha tido antes tanto interesse por uma
mulher.
Marília, por sua vez, pensava
que estava se enamorando daquela
menina, bonita, inteligente, espirituosa, alegre, simpática, não
achava defeito nela, apenas o fato de ela ser hetero, mas por que
não arriscar? Ttalvez ela fosse o amor que tanto procurava pelas
boates e bares de São Paulo.
Já estavam ficando meio
altos, quando Alex disse que estava com
fome. Pagaram a conta e resolveram procurar um restaurante que
servisse comida boa e barata. Encontraram no caminho uma senhora
bem idosa e perguntaram se existia algum lugar por ali onde
pudessem comer bem, ela indicou uma pensão, onde comeram arroz,
feijão-de-corda com manteiga-de-garrafa, macaxeira, pirão e
peixe,
adoraram a comida. Decidiram que já estava na hora de voltar para
a barca e tomaram o caminho do cais.
Quando chegaram, já tinham
combinado que, depois que a barca
zarpasse, Marcos desceria para buscar Bia, ela iria tomar banho no
banheiro de cima. Foi o que aconteceu, Marcos falou com o
marinheiro que ficava lá no alto da escada montando guarda para
ninguém subir, e ele a deixou passar, não sem antes recomendar
que
ela podia ficar com o moço, mas precisava descer quando
escurecesse.
Bia pôde finalmente conhecer
a tão falada primeira classe, eles
lhe mostraram a cabina e ela pode confirmar que era realmente
muito apertada, tinha dois beliches chumbados na parede, entre
eles só cabia uma pessoa em pé, no fundo tinha um armário
de aço,
não tinha janela, a porta tinha uma clarabóia que ficava aberta
para entrar o ar, era muito abafado, agora Bia entendia por que
eles ficavam quase o tempo todo lá em cima.
Subiram para lhe mostrar a tal
varanda. Ela encontrou um monte de
gente lá de baixo tomando sol, inclusive o rapaz gaúcho e sua
alemã, aliviou-se ao ver que não era a única penetra.
Ficaram
conversando lá em cima o resto da tarde, até Marcos lembrar
que
era melhor ela ir tomar banho antes que os passageiros começassem
a descer. Marília se ofereceu para mostrar-lhe o caminho e pela
primeira vez sentiu-se sem graça, ao perceber que estava sozinha
com ela, por isso entrou correndo para dentro do banheiro,
fingindo estar com pressa.
Lá dentro pôde perceber que aquele banheiro era bem melhor que
o
de baixo, tinha privada, mas a água era quase fria; reparou também
que com a pressa tinha esquecido de pegar roupa limpa, iria ter
que ficar com a mesma, pena, porque queria estar melhor arrumada e
sabia bem para quem queria ficar bonita. Depois do banho foi se
encontrar com eles e os convidou para descerem após o jantar para
assistir à cantoria.
A noite chegou. Linda. O comandante
fez soar o apito da barca para
avisar que a lua estava aparecendo. Todos correram para a frente
da barca e da escuridão surgiu uma lua enorme, branca, linda, como
se fosse dona do céu. Encostava sua luz lá no fim do rio e deixava
a barca navegar mansa pelo seu rastro de prata, a lua e o São
Francisco pareciam se beijar. Bia sentiu seu coração apertar,
a
cena que via era maravilhosa demais para ser vista sozinha, queria
ter alguém para poder compartilhar esse momento mágico e foi
aí
que, sem saber por quê, olhou para a parte de cima da barca e viu
Marília olhando para ela, ganhou um sorriso e naquela hora não
saberia dizer o que era mais lindo, o rio tingido de prata ou o
sorriso de Marília. Fez sinal para que ela descesse e ela
respondeu com a cabeça dizendo que desceria.
Seu coração estava
acelerado, parecia querer sair correndo, ela
não estava conseguindo segurar a emoção, o que falaria
para
Marília quando ela descesse? Como agiria? Estava completamente
confusa com todos aqueles sentimentos que a invadiam. Quando ela
chegou, foi salva de sua confusão de pensamentos e sentimentos
pela turma, que já tinha se instalado no chão e começava
a cantar.
Não trocaram uma só palavra, sentaram também e começaram
a
acompanhar o pessoal que cantava a música que o Caetano fez para a
lua, uma música levava a outra, Marcos e Alex se juntaram-se a
elas, cantaram ?Preta Pretinha?, do Moraes Moreira, e outras
tantas, até ouviram músicas folclóricas da Holanda cantadas
pelas
meninas de Holambra; uma garrafa de rum corria de mão em mão.
Bia
bebia, não por gosto, mas porque esperava que a bebida clareasse
seus pensamentos, não entendia por que estava daquela forma,
resolveu levantar, sair de perto de Marília e respirar um pouco de
ar no outro extremo da barca.
Não havia ninguém
perto das redes, resolveu pegar um outro maço de
cigarro em sua mochila. Quando estava acendendo um cigarro, viu de
repente um isqueiro aceso. Era Marília que a tinha seguido até
lá.
Bia estava tão nervosa que tremia e não conseguia acertar a
chama
oferecida, Marília a olhava encantada, quando finalmente conseguiu
acender o cigarro, ela falou:
¿ Esta noite parece mágica, não?! Tudo está tão
especial, pena que
eu não esteja me sentindo bem, acho que foi a comida da janta
misturada com o rum, vou subir e deitar, vim lhe procurar para
dizer boa-noite!
Antes que Bia tivesse tempo de
responder alguma coisa, Marília deu
um beijo rápido na sua boca e subiu para a cabina. Bia ficou
paralisada, não sabia o que fazer, deitou em sua rede ainda meio
tonta sentindo a pressão daquele beijo em seus lábios. Não
sabia o
que estava acontecendo, só sabia que tinha gostado e queria mais.
Naquela noite não conseguiu dormir, reviu toda a sua vida e chegou
à conclusão que não podia mais se enganar, gostava de
mulheres,
estava interessada em Marília. Teria que enfrentar isso. Sabia que
dali para frente sua vida mudaria e estava disposta a mudar,
afinal o motivo da viagem tinha sido o de se encontrar, não podia
mais fugir, era entendida como seu amigo falava, era uma mulher e
estava gostando de uma outra mulher. Resolveu ir até o fim para
ver no que dava essa aventura. Já era de madrugada quando acabou
adormecendo e sonhando os seus sonhos
Capitulo 3
O dia chegou, todos foram acordados cedo pelo apito da barca, que
avisava que iriam parar novamente, dessa vez a parada era em Xique
Xique. Todo mundo já estava pronto para descer e Bia não sabia
o
que fazer, onde estava Marília? Será que não tinha acordado?
Será
que ainda não estava bem? Enquanto pensava essas coisas, pôde
ver
Marília descendo a escada e abrindo um grande sorriso. Estava
sozinha. Disse que os meninos iam ficar dormindo mais um pouco.
Convidou Bia a descer e conhecer a cidade com ela. Desceram da
barca e foram explorar o lugar. Primeiro procuraram um bar onde
pudessem tomar café com leite e pão com manteiga, depois andaram
sem destino pela cidade. Enquanto andavam, iam se conhecendo
melhor, falavam de suas famílias, de suas infâncias, do que
gostavam, do que não gostavam, do que pretendiam fazer, dos
amigos, dos filmes que assistiram, dos artistas que gostavam,
falaram mal do governo, da condição de vida daquela gente do
sertão; quanto mais uma contava sua vida para outra, mais Bia se
encantava com Marília e Marília com Bia.
Elas nem prestavam atenção
na cidade de Xique Xique, só tinham
olhos uma para outra. As pessoas com as quais cruzavam nem sequer
de longe podiam imaginar que aquelas duas belas garotas não
estavam só passeando, estavam se namorando. Assustaram-se quando
ouviram o apito da barca avisando que iria partir. Saíram correndo
e chegaram a tempo de embarcar.
Subiram até a varanda para
encontrar os meninos, Marcos estava
negro de tanto tomar sol e Alex parecia mais um pimentão, de tão
vermelho. Eles as receberam com um sorriso maroto e Marcos disse
brincando:
¿ Achei que as donzelas
tinham feito que nem a Severina, que
comprou uma butique lá em Xique Xique. Falou e começou a cantar
aquela música da ?Severina Xique Xique?. Elas riram e todos que
estavam lá em cima se puseram a acompanhar a música, foi uma
festa, todos pareciam felizes.
Depois dessa cantoria, elas começaram
a contar para os meninos
como era a cidade, o tempo foi passando e Bia falou que estava
ficando tarde e que iria descer para jantar, estava com fome
porque só tinha comido no café da manhã. Marília
disse que iria
com ela até lá embaixo.
Quando desciam os degraus da varanda,
ela falou para Bia ir até a
cabina com ela. Bia a seguiu curiosa. Assim que entraram, Marília
fechou a porta e disse que precisava lhe dizer que estava
apaixonada por ela, que antes não acreditava, mas tinha que
reconhecer que existia amor à primeira vista. Bia ficou sem saber
o que dizer, só conseguia olhar para ela. Marília então
se
aproximou e começou a fazer carinho em seu rosto, em seus cabelos
e aos poucos elas começaram a se beijar.
Bia se sentia nas nuvens, nunca
tinha sido beijada assim, queria
que não terminasse nunca, sem perceber seu corpo ia se encostando
cada vez mais no dela, começava a sentir um gosto de amor em sua
boca, sentia que também queria Marília, que estava apaixonada.
Os
beijos começaram a ficar cada vez mais ardentes, as carícias
começaram a se multiplicar, Bia estava sentindo um desejo que
nunca em sua vida tinha experimentado e estava gostando, queria
mais, muito mais que beijos.
Foi quando a porta se abriu num
supetão, quase derrubou as duas no
chão; era Alex, que tinha ido buscar um comprimido para o Marcos.
Os três ficaram sem graça, Alex não sabia como se desculpar
do
fora, a situação estava tão constrangedoramente engraçada,
que os
três caíram na maior gargalhada. Bia ainda envergonhada aproveitou
para dizer que ia descer e que se veriam logo mais, estava
fugindo, tudo tinha acontecido rápido demais para ela, estava
confusa.
A noite chegou, depois do jantar
Marília e Alex desceram para se
encontrar com Bia, Marcos não estava bem, tinha tomado um
comprimido e caído no sono, Bia pensou que não poderia mais
ficar
a sós com Marília naquela noite. Havia fugido aquela hora e
agora
tudo o que mais queria era ficar sozinha com ela, não havia nada o
que fazer, os três acabaram passando a noite conversando com o
pessoal da barca, ouvindo e contando casos. Fizeram planos para
quando chegassem a Recife, já estava mais que certo que Bia viria
com eles, foi quando se deram conta de que aquela era a última
noite que passariam na barca, na manhã do dia seguinte à tarde
chegariam a Juazeiro.
Combinaram que dormiriam lá,
depois iriam para Petrolina, tomariam
um ônibus até Recife e ficariam em Olinda, onde Marcos já
tinha
reservado lugar numa pensão que era da tia de um colega de
faculdade. Tudo estava resolvido e planejado, nada poderia dar
errado.
O sono chegou, elas precisavam
se separar, Bia estava triste por
perceber que não poderia mais dar nenhum beijo em Marília naquela
noite e se arrependeu de ter fugido daquela maneira à tarde.
Tiveram que se despedir com um beijo no rosto. Bia foi para sua
rede. Outra noite sem conseguir dormir, agora o que lhe tirava o
sono era o desejo que sentia por Marília.
O último dia na barca amanheceu
quente, todos estavam tristes e
alegres ao mesmo tempo, iam deixar a barca, mas também queriam
chegar a terra e seguir os seus destinos. Um grupo seguiria de
Juazeiro para a região do Crato, no Ceará, e de lá iriam
até
Fortaleza, outros seguiriam de Juazeiro para Salvador, e outros
como o grupo de Bia iriam para Recife. Aviagem para a maioria
deles estava apenas começando.
Ao longo do dia a barca passou
por outras cidades: Sento-Sé, Pilão
Arcado, que agora mais parecia uma cidade fantasma. Ela tinha sido
abandonada porque seria coberta pelas águas da barragem de
Sobradinho. Puderam ainda ver o que restara de Remanso, apenas a
torre da igreja, o resto já havia desaparecido debaixo d?água.
Finalmente chegaram a Nova Sobradinho, uma cidade pré-fabricada,
construída para abrigar a população da antiga Sobradinho.
Deviam
desembarcar naquele porto improvisado, porque a barca não ia mais
até Juazeiro como todos pensavam.
Foi aí que o desespero
de Bia começou. Ela ficou sabendo que os
passageiros da primeira classe seriam levados para Juazeiro de
Kombi, e os da sua classe iriam na carroceria de dois caminhões.
Iria se separar de Marília. Marcos tentou convencer o motorista da
Kombi a levar Bia com eles, mas ele argumentou que não podia, que
os lugares estavam contados.
Como não havia mesmo solução,
marcaram de se encontrar em
Juazeiro. Bia acreditava que não mais veria Marília. Despediu-se
dela dando um abraço bem apertado e falando ao seu ouvido que a
amava. Marília olhou bem em seus olhos e disse que também a
amava
e que não se preocupasse, elas não iriam se perder.
Ficou parada olhando a perua partir,
sentia que parte dela ia com
eles.
Duas horas depois os caminhões chegaram. Bia subiu com suas coisas
na carroceria de um deles e ficou se martirizando:
?...tudo não passou de
fantasia, sua burra, você não vai mais
rever Marília, nem os meninos, e o pior é que você não
pegou o
telefone, nem o endereço dela, como vai encontrá-la? Dizem que
Juazeiro é grande, você nem sabe onde esse caminhão vai
parar.
Estava tão encantada que acabou ficando burra! Devia ter se
informado melhor! Como você vai conseguir achá-la agora? Está
perdendo a melhor coisa que já aconteceu em sua vida!...?Enquanto
se lamuriava, o caminhão seguia por uma estrada empoeirada e
escura, não dava para saber onde estava.
Em cima do caminhão havia
pelo menos umas 50 pessoas, mais
engradados de garrafas vazias. Bia tinha se acomodado perto de um
deles. Anoitecia, ventava e fazia muito frio naquela carroceria;
as pessoas estavam amontoadas como se fossem gado; Bia podia
entender agora o que era andar de pau-de-arara. A única coisa
bonita de ver era o céu, ela nunca tinha visto tanta estrela junto
em sua vida, mas do que adiantava olhar para as estrelas, se ela
não tinha junto a si a sua Marília.
A viagem foi longa demais, ela
já tinha perdido a noção do tempo,
sentia como se estivesse com febre, sua cabeça doía muito, estava
se sentindo um pouco tonta. Quando deu por si, o caminhão já
estava numa cidade, achava que talvez tivessem chegado.
O caminhão finalmente estacionou
numa praça, rapidamente as
pessoas começaram a descer, menos Bia, que estava com sua perna
adormecida e achava inútil ter tanta pressa, não sabia para
onde
iria, não conhecia ninguém naquele caminhão, o pessoal
que
conhecera na barca tinha ido no outro, estava sozinha.
Começou a se levantar devagar
quando de repente ouviu seu nome,
olhou em volta e viu Marília, Marcos e Alex, atravessando a rua e
vindo em sua direção. Ela não podia acreditar no que
via, eles a
tinham achado. Ajudaram-na a descer, pegar suas coisas e a
abraçaram contentes.
No caminho para o hotel, Marcos
foi contando a aventura deles:
tinham chegado a mais de duas horas, o motorista da Kombi tinha
ensinado para eles o lugar onde o caminhão da barca parava,
arrumaram um hotel lá perto, tomaram um banho e foram esperá-la.
Bia estava tão feliz, pois pensara que nunca mais iria rever sua
Marília e lá estava ela, a seu lado, linda como nunca. Como
todos
estavam mortos de fome, resolveram jantar, antes passaram no hotel
para ela deixar suas coisas e ela ficou sabendo que ficaria num
quarto com Marília e os meninos em outro, arranjo que a dona do
hotel achou ótimo, pois havia alertado os rapazes que seu hotel
era de família.
Após o jantar, foram andar
perto da margem do rio, avistaram a
ponte que ligava Juazeiro a Petrolina e resolveram atravessá-la.
No meio do caminho, Bia falou para Marília que não estava se
sentindo bem, sua dor de cabeça tinha aumentado. Marília colocou
a
mão em sua testa e achou que ela estava um pouco febril; decidiram
voltar para o hotel.
No quarto, Marília deu
um comprimido para ela e disse que era
melhor se deitar, acreditava que talvez tivesse sido o vento o
causador de todo aquele mal. Dizia que uma noite bem dormida numa
cama limpa resolveria tudo. Bia aceitou a sugestão e nem bem
deitou na cama já caiu no sono, nem viu que Marília deitara
na
cama a seu lado, nem percebeu que ela ficara acordada velando seu
sono.
Estava amanhecendo quando Bia
acordou, olhou em volta e viu
Marília dormindo na cama a seu lado, lembrou-se que tinha se
sentido mal e levantou para ir ao banheiro, que era no fim do
corredor. Estava se sentindo nova em folha, lavou o rosto e voltou
para o quarto. Quando entrou, Marília estava sentada na cama.
Perguntou se estava se sentindo bem, Bia respondeu que estava
ótima, nem ouviu quando Marília disse que era melhor ela voltar
a
dormir. Ainda hoje não sabe como venceu a sua timidez, mas lembra
que foi chegando para perto da cama, segurou o rosto dela em suas
mãos e lhe deu um longo beijo de amor. Seus corpos se procuraram e
se juntaram num desejo desesperado, num desejo adiado. Aos poucos
as roupas foram sendo jogadas no chão, Bia sentia seu corpo arder,
queria Marília, que parecia entender o que ela queria, porque suas
mãos iam descobrindo caminhos ocultos, sua boca beijava lugares
secretos, que despertavam sensações que ela nunca tinha imaginado
que existissem, fazendo com que quase morresse de tanto prazer.
Fizeram amor a manhã inteira.
Abraçada a Marília, Bia pensava que
finalmente encontrara o amor que tanto procurava, agora tinha
certeza do que queria, do que andara procurando e sabia que esse
tipo de amor homem nenhum lhe daria, amava uma mulher e não via
nada de errado num sentimento tão bonito.
Escutaram bater na porta, Marília
levantou para atender; era
Marcos, que queria saber se estavam bem, dizia que já era meio-dia
e perguntava se elas iriam levantar. Não conseguiu ouvir a
resposta de Marília, o fato é que Marcos colocou a cabeça
para
dentro do quarto e disse:
¿ Cuidado menina, você
vai acabar morrendo disso! Precisa guardar
suas forças para me proteger ou você já esqueceu que é
a minha
heroína salvadora, a minha Joana d?Arc? E saiu rindo pelo
corredor. Pode ouvir quando ele gritou lá de fora: ?Salve meu Bom
Jesus da Lapa?!
Marília olhou sorrindo
para Bia e quando seus olhos se encontraram
Bia teve certeza: essa viagem era mais que uma viagem, era a
viagem da sua vida, e o melhor é que estava apenas começando.
Bertha Solaris é paulista,
professora universitária e estréia na
literatura com este conto, que esperamos não ser o último.